Hoje é dia de rugby!
Neste semestre fiquei apenas com os Sábados à tarde para treinar – situação bem diferente daquela do ano passado ou do retrasado, em que eu treinava pelo menos três vezes por semana. Por conta desta situação atual, minha relação com o mundo do esporte está diferente: vou para treinar, para fazer minha (pequena) parte no desenvolvimento do time, e não ambiciono participar dos campeonatos e talvez nem dos jogos amistosos que aparecerem, porque para entrar no campo de batalha é necessário um mínimo de preparação.
Estou completando dois anos no rugby. Foi mais ou menos nesta época, em Maio de 2006, que eu vi um treino no gramado do IA, na Unicamp, e decidi descer até lá para me informar a respeito. Em uma pausa, identifiquei o técnico e troquei umas breves palavras com ele; disse que teria interesse em participar. Ele me olhou, e deve ter pensado: “mais um back, e magro como nunca vi”, e disse que eu seria bem-vindo. “Qual o nome do senhor?”, perguntei. Ele me deu a resposta. Apertei sua mão, me retirei e ele continuou o treino com seu forte sotaque Argentino.
Foi assim que tudo começou para mim, e esse começo não tem fim: uma vez que se é um rugbier, nunca se deixa de ser um rugbier. A frase “não sou mais um jogador” não se aplica aqui; costuma-se dizer, no lugar: “não estou mais jogando”. O ser não é afetado.
Quem me ouve falar do rugby certamente imagina que eu comecei a jogar desde criança e participei de dúzias de campeonatos, vencendo sempre e marcando tries sem parar. Talvez então seja surpreendente, para as pessoas, descobrirem que nem sequer fazia dois anos que eu estava treinando; que eu quase nunca estive na linha de frente durante os jogos, e que os jogos em que de fato participei como titular, jogando a maior parte do tempo, foram apenas seis até o momento. Mais: desses seis, foram quatro derrotas, um foi empate (!) e houve apenas uma vitória.
E eu amo o rugby!
A melhor coisa que me aconteceu na Unicamp, fora o fato de ter entrado para ela, foi ter descoberto esse esporte magnífico, que eu chamo o rei dos esportes. O problema é que entrei muito tarde: eu estava completando 28. É, sem dúvida, tardíssimo para o que representa o esporte. Condicionamento físico eu tinha razoavelmente, já que sempre estava fazendo alguma coisa; mesmo assim, seria diferente se eu tivesse meus 18 anos e ajudaria se eu não tivesse desvio de septo e pesasse mais (sempre tendo em mente, no entanto, a frase repetida por nosso técnico: “no rugby, tamanho não é nada; atitude é o que importa”).
Eu acredito no rugby com uma fé que pode ser descrita como religiosa. Acredito em seu poder de transformação individual e coletiva. Costumo dizer que o rugby faz bem para o corpo, para a mente e até para a sociedade, e isso não é nenhum exagero! Quem conhece a fundo o espírito desse esporte sabe disso. Penso que o rugby poderia ser colocado como alternativa para a molecada dos 17 ou 18 anos que não quisesse servir o exército: as lições positivas seriam as mesmas e o caráter seria até melhor moldado. Eu estou, também, convencido que se o rugby se tornar o esporte nacional do Brasil (se as crianças passarem a jogar desde cedo, tal como as peladas do futebol), mantendo-se intocado o espírito de amadorismo, a criminalidade cairá um pouco e os índices de corrupção geral despencarão. Só quem não conhece a fundo o esporte poderá rir dessas afirmações.
Violento?
Hoje em dia não temos mais aquelas batalhas nas quais lutavam heróis; o dedo no botão e a bomba matando dez mil à distância apagaram quase que totalmente a glória, a coragem, a compaixão que havia nos enfrentamentos de exércitos no campo: a guerra ‘de machos’ – sem sexismo no termo.
A atividade moderna mais próxima das batalhas cara-a-cara que existiram até a época da Guerra da Secessão é o rugby. “Puxa, mas isso é violência”, diz alguém que escuta isso e assiste ao que aparentemente é uma pancadaria no campo esportivo. Mas é justamente o contrário: o rugby é contrário à violência. Quem assistir partidas de todos os níveis (seja na TV, seja o amistoso na várzea vizinha) verificará que, ao contrário do futebol, são raríssimas (quase inexistentes) as discussões, as brigas, a indisciplina. Na medida em que não se trata de uma brincadeira (como o futebol de hoje em dia acabou virando), não temos reizinhos egoístas e mimados no campo: temos soldados fortes, humildes, disciplinados e conscientes. “Disciplina é liberdade; compaixão é fortaleza; ter bondade é ter coragem”. Na medida em que o contato físico é permitido e faz parte do jogo, a violência se extravasa; não fica contida na panela de pressão que é o futebol, pronta a explodir a cada momento.
Machuca? Sim, machuca. Meus cotovelos e joelhos apresentam manchas, que são resultado dos esfolamentos que pegaram sol forte. Tive dois ou três dedos fraturados (nunca fui ao médico no tempo em que deveria, para tirar as dúvidas), torções diversas nos membros inferiores, pés massacrados por travas de alumínio, rosto cruelmente curtido pelo sol, nariz trincado e entortado mais do que a natureza já havia entortado. Tive tudo isso e sei que o custo-benefício é imenso. Perguntem aos rugbiers que têm pinos nos braços ou nas pernas se eles trocariam aqueles momentos ‘de risco’ no campo por momentos ’seguros’ de ficar de barriga para cima no sofá, vendo TV e bebendo cerveja… Você correrá o risco de ouvir algumas palavras feias.
No rugby ganhei mais caráter, e coisas como senso de hierarquia, coragem, disciplina, auto-estima e humildade, dentre outras, foram desenvolvidas. Acima de tudo, meu espírito de coletividade e serviço para o bem do grupo foram enriquecidos como nunca. A gratidão que tenho é imensa, e só me preocupa o fato de que possivelmente eu nem sempre consiga ou saiba retribuir à altura.
Quando me vejo frente a problemas difíceis na vida, penso sempre nas lições do rugby. “Não posso quebrar aqui, afinal sou um jogador de rugby!”. Não me deixo vencer pela angústia e nem explodo em violência porque essas não seriam atitudes de um rugbier. “O que meu técnico ou meu time diriam se me vissem agir de tal forma errada?”. Eu acho que só houve milagre no Milagre dos Andes porque aqueles eram jogadores de rugby.
Um líder
O que é um líder? Uma pessoa que tem um título e comanda? Alguém a quem devemos obedecer para não sofrer coerção? Talvez hoje em dia seja o caso, mas, voltando à analogia com as guerras antigas, é fácil ver que a figura mítica de líderes como William Wallace, General Lee e tantos outros nas mais diversas culturas e causas está hoje praticamente extinta.
Eu acredito que um líder é alguém que conquista; alguém cujos seguidores querem segui-lo até a morte, porque têm nele uma confiança inquebrantável, que se firma através do exemplo que ele mostra a cada momento.
Eu tive o privilégio de conhecer um líder assim, e esse líder é nosso técnico de rugby.
Esse homem é a personificação do auto-sacrifício em prol do benefício do grupo, da causa, do ideal. Jamais, em momento algum, vi uma sombra de falha em seu caráter. Quando era eu próprio ou algum outro companheiro que demonstrava algum tipo de falha de caráter, lá estava ele para nos corrigir e nos colocar no caminho certo. Frente a seu exemplo sem qualquer mancha, como poderíamos nos queixar de cansaço? De dor? De falta de recursos? De qualquer coisa?
Sou um professor, e estou mergulhado no campo da educação. Afirmo que o melhor professor que já conheci na vida é esse estrangeiro que nos presenteia com os treinos de rugby.
Para algumas pessoas, minha imagem se mistura à do rugby. Muitos ouviram falar do esporte pela primeira vez através de mim; fui pioneiro ao levar a bola ovalada pela primeira vez para algumas cidades, tais como Jales, SP (Abril deste ano) e muitas outras; alguns amigos me cumprimentam dizendo: “e aí, rugby?”.
Enfim, está na hora de ir. Vestir o uniforme, rever os amigos, correr como fullback ou wing, rolar pelo chão, ouvir instruções e correções, fazer abdominais e flexões, aliviar a mente, desenvolver o espírito. Viver.
Caso eu vá para longe, para algum lugar sem rugby, sempre me lembrarei destes momentos no campo como alguns dos melhores de toda a minha vida.