Gaviãozinho e Garcinha

December 29, 2007

Eu não deveria escrever, mas fiquei devendo isso no post anterior; então, paciência: o dever chama. Cumpri-lo-ei em poucas linhas, da forma mais resumida possível. Não estou triste, mas justamente por isso não seria bom dar margem à tristeza… Enfim, vamos lá.

A Garcinha apareceu na quinta-feira anterior à Páscoa. Me despedi dela na outra quinta, quando tive que sair do sítio, e já no Sábado de manhã, ao que parece, ela havia sido morta. No começo, minha dúvida quanto aos cachorros terem a autoria do crime era de 0.1%. Hoje em dia já duvido muito, chegando a 45% para ’sim, foram eles’, e 55% para ‘pode ter sido um gato ou algum animal selvagem’. Como eu já disse, tentarei escrever a história da Garcinha em algum momento, que não deve ser este de muito sono. Eu a menciono agora para compará-la ao outro pássaro deste ano.

O Gaviãozinho — tal como a Garcinha — foi minha mãe que achou: na estrada, quando dirigia para a casa, e a menos de 200m do portão. Parecia totalmente indefeso. Não voava, os pais não apareciam, e então decidimos cuidar dele até que voasse. Tal como a Garcinha… E tal como a Garcinha, não chegou a ganhar os céus, que seus olhos magníficos tanto miravam, com um misto de admiração, temor, curiosidade, saudade, vontade, fascínio.

O dia em que recolhemos o Gaviãozinho foi o 30 de Outubro. Uns dias depois, chegava a edição de Novembro da Terra da Gente, falando justamente sobre aves de rapina. Alimentávamos o bebê-gavião com frango nos primeiros dias, e depois com carne vermelha moída. Ficou de início em um dos quartos do ‘casebre’ (um dia explico), depois em um dos banheiros desse mesmo ‘casebre’ — onde agora está o beija-flor em seu ninho –, e por fim construí um lugar ‘definitivo’ para ele na mini-capela, onde ficou muito bem.

Um mês e meio e o Gaviãozinho não mostrava progressos na arte de voar. Ficamos meio preocupados, ainda mais porque de repente ele pareceu até ter regredido, ficando mais encolhido. Pensamos em contactar um centro de reabilitação para aves de rapina em Jundiaí, para que cuidassem dele… E deveríamos mesmo ter feito isso. Seja como for, ficou aqui, e nos demos conta de que, por não ingerir ossos nem pelos ou penas, poderia estar faltando cálcio em seu organismo. Passamos a dar cálcio então, e isso o melhorou sensivelmente. Há cerca de quatro dias, vi bons progressos. Eu o tirava da capelinha, o colocava no chão junto a um banco e um arbusto, e ele logo voava do chão ao banco onde eu me sentava, e do banco até o encosto ou até o arbusto. E ali ficávamos… Eu lia, escrevia, o observava, falava com ele… E ele progredia, e olhava o céu… O azul infinito que o fascinava, que o chamava!

No dia do Natal, ficamos eu e meu pai com ele. Meu pai tinha uma intimidade especial com o filhote. Nesse dia, tiramos muitas fotos, e tentei sem sucesso registrar uma das muitas ocasiões em que meu pai trocava beijos de nariz com ele. Meu pai pediu o cartão de memória, para que pudéssemos fazer uma filmagem mais longa. Fui meio com preguiça buscá-lo no casebre, mas no meio do caminho meu pai gritou para que eu deixasse para lá, já que as pilhas da câmera haviam acabado. Se eu soubesse, teria ido não só buscar o cartão como arrumar pilhas novas de onde fosse.

No dia 26, eu estava no computador e minha mãe me pedia que ficasse um tempo com o Gaviãozinho. Era de tarde. Me irritei ante a insistência, afinal "isso não tem hora marcada, pode ser a qualquer tempo"; mas depois de um tempo acabei indo. Eram umas 18h00 e pouco, por aí. Olhei pela janelinha da porta, não o vi no poleiro. Pensei, "ah, deve estar no chão". Estava, só que aparentemente morto, com a barriga carijó de coraçõezinhos para cima. Entrei, vi que realmente estava morto. Estava com os olhos — os olhos que tanto reverenciavam o céu — completamente fechados, o que é raro em um pássaro morto. Tive que comunicar o fato a minha mãe. Perguntei quando o havia visto pela última vez, e ela disse "por volta do meio-dia". Nosso Gaviãozinho já estava duro e com as patas frias. Pensei que talvez tivesse morrido há não mais de duas horas. Procurei por sinais… Nada indicava a causa da morte.

As duas aves que vieram e caíram em nossas mãos morreram.

O que lamentamos não é a partida dos nossos amigos, afinal o objetivo era mesmo esse: que partissem logo… Mas vivos, e voando para o céu. Queríamos apenas ter dado uma mão amiga para que o curso da Natureza não fosse interrompido, mas por alguma razão isso acabou não dando certo. No caso da Garcinha, a vantagem é que ela buscava o próprio alimento (inclusive, a mãe ainda a alimentava diariamente). Nada fazíamos além de pastoreá-la de sol a sol para que ficasse longe dos cachorros, para que bebesse água, e então a guardávamos em lugar seguro para a noite. Ela morreu atacada por algum inimigo, quando na minha ausência a perderam antes de escurecer.

O Gaviãozinho não se alimentava por conta própria, mas essa desvantagem também poderia ser vista como uma vantagem, já que ele não precisava de um grande território para passar o período conosco. Assim, sempre resguardado, ia crescendo… Estava sempre seguro, e nisso residia sua vantagem sobre a Garcinha. Mesmo assim, morreu antes do objetivo cumprido. Por quê? Má alimentação? Excesso de alimentação? Acho que jamais saberemos…

Fica aquele vazio, o mesmo que a Garcinha deixou. Os dias parecem sem objetivo, agora que não temos que alimentá-lo, nem levá-lo para se exercitar, nem ouvir seus piados e dar o dedo para que ele o bique de leve. Os dias parecem sem graça…

Talvez um terceiro pássaro tenha que aparecer, e então conseguiremos levá-lo ao céu. Talvez a Garcinha e o Gaviãozinho sejam um só. Sei que isto é amor, este é o amor de verdade, que a maioria das pessoas só pensa que já sentiu.

Olhe para o céu, Gaviãozinho. Isso, olhe… Seus parentes estão lá, voando. Logo você vai ser o rei desse céu. É o seu espaço! Vejo o céu nos seus olhos!

1 Comment »

The URI to TrackBack this entry is: http://politicallyincorrect.blogs.ie/2007/12/29/gaviaozinho-e-garcinha/trackback/

  1. É… a perda também faz parte do Ciclo da Natureza que você menciona aqui, meu amigo!
    Embora as histórias acabem de forma triste, o importante é que você soube amar verdadeiramente!:) Quer coisa melhor que essa?…

    Comment by Janaína Perez — January 6, 2008 @ 11:42 pm

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment

Line and paragraph breaks automatic, e-mail address never displayed, HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>



Anti-spam measure: please retype the above text into the box provided.